CAFÉ-CONCERTO



Jaroslav Seifert

O dragnought em manobras
em meio das vagas acha um violino
o boné do capitão escapa-lhe
e voa em torno do navio, branca ave.

O arco, esse,
arrastado pelas correntes quentes,
foi levado até ilhas desconhecidas,
mesmo até à enseada onde a água se detém.

Só palmeiras de cartão
podem florescer sob este céu,
as conchas das ruas desertas
no fundo dos serões.

Lá, rodeado pelos perfumes
da ilha, pavoneia-se um rei negro,
com o arco na mão.

Lá, as cabeças de um povo submetido
como os pequenos pontos das notas pretas
dançam em semi-círculo à volta dele.
E, descrevendo a curva de uma clave de sol,
as serpentes elevam-se faiscantes acima da erva.

Tocai, pois, mas suavemente, violinos.
A Europa quer dormir, nada mais que dormir,
e vomita as estrelas.

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