Sem verde, Belém fica quente e poluida


PESQUISA:
Samilla Batista
Da Redação
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Um estudo inédito mensura em números o que já é uma evidência empírica em Belém: a Cidade das Mangueiras perde áreas verdes de forma acelerada, o que provoca aumento da temperatura média e o acréscimo de mais de uma tonelada de agentes poluentes no ar. A pesquisa consiste na dissertação de mestrado da pesquisadora Roberta de Carvalho, que mostra a perda gradativa das áreas verdes em 21 bairros da capital paraense, entre os anos de 1986 a 2009. Além disso, aponta as consequências da devastação na vida dos cidadãos, especialmente no que se refere à poluição do ar e sonora e às mudanças climáticas. Entre os inúmeros dados apresentados, é possível observar que bairros como Telégrafo, Sacramenta e Pedreira foram os que mais sofreram com a devastação das áreas verdes, principalmente devido à expansão da construção civil nos locais. Nesses bairros, a concentração de solo exposto subiu de 1% para 16%.
   
intenção da pesquisa, orientada pelo docente Claudio Szlafsztein, foi mapear as áreas que apresentam solo exposto, vegetação pobre, moderada, densa e muito densa, além de mostrar que a ausência de vegetação impacta diretamente na qualidade de vida da sociedade. Os 21 bairros analisados foram divididos em três regiões. A primeira responde pelos bairros Cidade Velha, Campina, Reduto, Umarizal, Batista Campos, Nazaré, São Brás e Marco. A segunda diz respeito aos bairros Telégrafo, Barreiro, Miramar, Maracangalha, Sacramenta, Pedreira e Fátima. E a terceira é representada pelos bairros Guamá, Condor, Jurunas, Cremação, Canudos e Terra Firme. As divisões tiveram como base o Plano Diretor Urbano de Belém (PDU).
 
A perda da vegetação, de acordo com a pesquisadora, interfere diretamente nos serviços ambientais que a natureza fornece ao ser humano. Entre os impactos está o aumento da poluição sonora, que tende a se elevar de forma exponencial. "Sabe-se que o verde absorve naturalmente ruídos. Por isso, a tendência é que os níveis de decibéis aumentem, à medida que as áreas vão sendo devastadas. Isso pode gerar, inclusive, distúrbios de sono e outros danos à saúde", alerta.
A ausência de verde também se reflete na poluição, porque as árvores também têm a função de absorver poluentes. Segundo a pesquisadora, cada hectare de floresta mista (junção da floresta densa com a muito densa) absorve uma tonelada e meia de agentes poluentes. Por isso, com base em estudos internacionais, foi possível se chegar aos seguintes índices: a primeira região perdeu a capacidade de absorver 1,35 toneladas de poluentes em 23 anos. A segunda região, por sua vez, deixou de absorver 1,9 toneladas para captar apenas 0,65 toneladas. A terceira região deixou de "engolir" 1,8 toneladas de resíduos para captar somente 0,66 toneladas. "Ou seja, em termos gerais, passamos a respirar mais de uma tonelada de poluentes", frisa Roberta.
CLIMA
O último impacto mensurado foi a regulagem do clima, que, de acordo com a pesquisa, está associado à perda da vegetação. Com base em outros estudos foi possível observar que, entre os anos de 1997 a 2008, a média de temperatura dos 21 bairros analisados aumentou. No Reduto, por exemplo, a média máxima saltou de 25°C para 28ºC, e a média mínima caiu de 20°C para 25°C. Já nos bairros do Jurunas e do Guamá a média mínima foi de 18°C para 23°C em onze anos. O Barreiro e o Marco são os que apresentam a maior diferença entre a temperatura mínima e a máxima. Antes, a média mínima dos dois bairros era de 18°C e depois saltou para 24°C, e a média máxima foi de 24°C para 26°C. "Assim, fica claro que todas as regiões tendem a ter suas temperaturas elevadas", destaca.

Entre os anos 1986 a 1993 foi possível observar que a perda de vegetação foi pequena. A pesquisa constatou, porém, que os impactos foram maiores entre 2001 e 2009. "A vegetação densa e muito densa foi praticamente dizimada em quase todos os pontos estudados. Nos bairros da primeira região, por exemplo, o verde está presente, praticamente, em praças e parques", afirma a pesquisadora, mestre pelo Programa de Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia, do Núcleo de Meio Ambiente (NUMA) da Universidade Federal do Pará (UFPA).
De acordo com a pesquisadora, os bairros da segunda região foram os mais devastados, porque eram os que mais tinham vegetação densa a ser preservada. "Mas agora, há áreas nesses locais onde o solo está completamente exposto. Vale ressaltar que quanto menor a cobertura vegetal, mais problemas ambientais nós temos", afirma Roberta.
Na primeira região estão os bairros mais tradicionais de Belém, por isso, a perda foi menos acentuada, pois o processo de urbanização nessa área é mais antigo. Apesar de a perda ter sido menor, os bairros da primeira região não ficaram livres da devastação. Há 23 anos, a área possuía apenas 3% de solo exposto, ou seja, locais sem nenhuma vegetação. Em 2009, esse número subiu para 20%. Para completar, a vegetação densa dessa região, caiu de 12% para aproximadamente 3%. "Apenas a vegetação pobre cresceu, aumentando de 25% para 52%. Com isso, é possível perceber que há uma perda da massa verde e um ganho de áreas expostas cada vez maior", destacou. A diminuição de vegetação nessa região também pode ser observada em áreas próximas à avenida Pedro Álvares Cabral, onde novas construções surgem a cada dia.
Áreas próximas à Universidade Federal do Pará e ao Curió-Utinga eram das poucas ainda preservadas, mesmo nas localidades mais urbanizadas. Mas, agora, segundo a pesquisadora, a vegetação que ainda resta é quase nenhuma. Nos bairros da terceira região, o percentual de solo exposto subiu de 1% para 7%. Em contrapartida, a vegetação pobre subiu de 12% para 62%.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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