Caça extermina a vida selvagem


A abundância de animais se reduz até 90% nos locais em que chegam os caçadores 

Miguel Angel Criado


Há selvas tão cheias de árvores quanto vazias de animais. A caça quase acabou com eles. Uma profunda revisão de artigos sobre o impacto das atividades de caça na biodiversidade dos bosques tropicais mostra que onde os caçadores chegam a abundância da vida animal se reduziu a 90%. A maior ou menor proximidade dos assentamentos humanos ou uma estrada determinam se uma selva estará vazia de vida.
O estudo, realizado por um grupo de ecologistas liderado pela pesquisadora espanhola Ana Benítez, revisou 175 pesquisas anteriores realizadas desde 1970 que analisavam os efeitos da caça sobre a abundância da vida selvagem. O outro dado essencial buscado era medir o alcance em quilômetros do efeito, até onde chegava o impacto dos caçadores. Obtiveram dados de 254 espécies de mamíferos e 97 espécies de aves. O trabalho inclui a situação das florestas da América Latina, África Central e sudeste da Ásia e outros biomas tropicais, como a savana africana e o Cerrado amazônico.
Em conjunto, nas áreas onde existe caça, a abundância de aves diminuiu 58% em média e a de mamíferos 83% em comparação com as áreas onde não existem caçadores. Essas são as médias, existem regiões e espécies nas quais a biodiversidade desapareceu em até 90%. Para os pesquisadores, a diferença de porcentagem entre aves e mamíferos pode ocorrer por conta do tamanho maior dos segundos, o que os transforma em alvos mais interessantes para consumo e comércio.
“A caça comercial tem mais impacto do que a de subsistência, em especial entre os mamíferos”, diz Benítez, pesquisador da Universidade Radbound de Nijmegen (Holanda). Mesmo que possa parecer pelo tipo de carne (de macacos a roedores) que se trata de um comércio local em pequena escala, Benítez destaca também sua dimensão internacional: “Em alguns casos, essa carne é vista como uma iguaria, em outros, como acontece com o pangolim na China, seu drama se deve à medicina tradicional”.

Langur de cabeça-branca -
O outro grande dado aportado pela pesquisa publicada na Science é a relação entre distância e grau de redução de biodiversidade. Os pesquisadores aplicaram a lógica: o impacto deve ser maior quanto mais próximos estão dos humanos. Identificaram dois pontos de partida fundamentais, os assentamentos humanos e as estradas. Comprovaram que, efetivamente, os caçadores só se afastam do povoado e do caminho se for estritamente necessário.
Dessa forma, estimaram que em um raio de 500 metros ao redor de alguns desses focos humanos quase não existem aves. No caso dos mamíferos, 90% desapareceu em 700 metros ao redor. Mas, à medida que a distância do centro aumenta, a fauna também vai se recuperando. A abundância de pássaros se iguala entre áreas de caça e áreas livres de caçadores ao chegar aos sete quilômetros. Os mamíferos precisam de 40 quilômetros para escaparem dos caçadores.
“Essas distâncias estão relacionadas com a capacidade de acesso que tem uma pessoa que vai caminhando”, comenta a pesquisadora espanhola. Mas não se trata de uma distância estática. “E à medida que os animais maiores desaparecem, os que têm mais valor comercial, o caçador aumenta a distância percorrida”, diz Benítez.
Além da distância de um povoado e de uma estrada, o estudo destaca também que quanto mais próximos de uma cidade, que pode funcionar como mercado, pior para os animais. Além disso, revela que as espécies que vivem em áreas protegidas não se salvam da perseguição dos caçadores. Nesse caso, a caça é quase toda de caráter comercial.
Mesmo que o objetivo desse trabalho não seja identificar quais espécies são as mais caçadas, os pesquisadores puderam chegar a algumas conclusões: os animais maiores são os mais dizimados. Entre os mamíferos, enquanto as diversas espécies de ungulados, roedores e símios são caçadas principalmente por sua carne, os felinos são exterminados por competirem com os humanos.
O pior é que, como apontam os autores do estudo, o impacto da caça sobre a vida animal será cada vez maior. Os dois principais fatores de risco são a proximidade de um povoado e de uma estrada. “Na África, 90% das florestas que restam estão a menos de 50 quilômetros de uma estrada”, diz Benítez. Com a previsão do aumento da população nessas regiões, os novos assentamentos, as novas estradas chegarão cada vez mais longe e com eles os caçadores.
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Fonte:
 http://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/11/ciencia/1491929803_554985.html

http://brasil.elpais.com/autor/miguel_angel_criado_asien/a/

 






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